Com 48 seleções e três países anfitriões, a Copa 2026 expõe diferenças de infraestrutura e gestão pública que colocam o Brasil em perspectiva comparada.
A Copa do Mundo de 2026, que acontece de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, México e Canadá, não é apenas um torneio de futebol (Aqui Esportes). Para os governos dos países anfitriões e para nações que acompanham de fora, ela funciona como um laboratório de políticas públicas de turismo em escala máxima. A edição ampliada, com 48 seleções e 104 partidas distribuídas por 16 cidades em três países diferentes, exige uma coordenação entre governos federais, estaduais e municipais que vai muito além do que qualquer edição anterior demandou da estrutura pública (Gazeta do Povo). Para o Brasil, que sediou a Copa de 2014 e ainda carrega algumas das lições daquela experiência, o torneio de 2026 traz perguntas que têm tudo a ver com o presente do setor.
Uma delas é objetiva: o país está aproveitando o momento para consolidar o turismo como política de Estado? O Ministério do Turismo identificou, em levantamento divulgado no início do ano com base no Boletim Braztoa, os destinos nacionais com maior potencial para 2026. Maceió lidera a lista, seguida por São Paulo, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Porto de Galinhas, Gramado, Fortaleza, Jericoacoara, Fernando de Noronha, Lençóis Maranhenses e Florianópolis (gov.br/turismo). A diversidade da lista mostra que o Brasil tem muito a oferecer, mas a questão política é outra: o que está sendo feito para conectar essa oferta a uma demanda internacional crescente?
O que os países anfitriões da Copa 2026 fizeram que o Brasil ainda pode aprender
Observar como os Estados Unidos, o México e o Canadá organizaram a infraestrutura para a Copa 2026 oferece lições práticas sobre o papel da política pública no turismo. Nos EUA, que concentram 78 das 104 partidas em 11 cidades-sede, a distribuição dos jogos por múltiplas cidades, de Los Angeles a Nova York, passando por Miami e Dallas, obrigou o governo federal e os estados a coordenarem melhorias no transporte interurbano e na capacidade de hospedagem (Zoho). O resultado não é perfeito, mas o planejamento antecipado criou um legado de infraestrutura que vai além do torneio.
No Brasil, a Copa de 2014 deixou um legado misto. Os investimentos em aeroportos foram considerados o ponto positivo mais consistente, com concessões que ajudaram o país a sair de uma média de 50 a 60 milhões de passageiros por ano para quase 100 milhões, segundo dados da Anac citados pela revista Problemas Brasileiros, da FecomercioSP (FecomercioSP). Já vários estádios construídos ou reformados para o torneio enfrentaram subutilização nos anos seguintes, parte deles classificados como “elefantes brancos” por especialistas (SpaceMoney; CartaCapital). O debate sobre o que justifica investimentos públicos em grandes eventos ainda ecoa nas câmaras municipais e nos parlamentos estaduais. A diferença entre um legado real e uma estrutura que serve apenas durante o evento está, quase sempre, na qualidade do planejamento prévio e na integração com as demandas reais da população local, não apenas dos turistas que chegarão durante as partidas.
O ponto que conecta política pública e turismo de forma mais direta é a questão da conectividade aérea. O levantamento da Braztoa identificou a conectividade aérea como um dos fatores centrais no desempenho dos destinos turísticos em 2026, ao lado da qualificação da oferta e do reposicionamento das narrativas de experiência (Panrotas). Destinos que têm voos diretos com frequência adequada conseguem atrair visitantes de forma mais previsível; destinos que dependem de conexões longas perdem competitividade mesmo quando têm atrativos naturais e culturais excepcionais. Isso é uma decisão de política pública, não apenas de mercado.
O que os viajantes brasileiros precisam saber sobre o turismo como pauta política
Para o viajante comum, a ligação entre política e turismo pode parecer distante. Mas as decisões tomadas em gabinetes sobre impostos no setor aéreo, sobre investimentos em infraestrutura de transporte, sobre regulação de plataformas de hospedagem e sobre vistos para turistas estrangeiros têm impacto direto no preço da passagem, na qualidade do destino e na acessibilidade de experiências que antes pareciam fora de alcance.
A Anac registrou aumento de 9% nas tarifas nacionais em abril de 2026, um dado que tem origem parcial em fatores como a alta do querosene de aviação, mas que também é influenciado por decisões regulatórias e tributárias que estão na esfera política, como o decreto que zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o combustível de aviação e a linha de crédito emergencial liberada para as companhias aéreas (Tribuna do Sertão, com dados da Anac). O programa Voa Brasil, lançado pelo governo federal para aposentados do INSS que não viajaram de avião nos últimos 12 meses, é um exemplo de como a política pública pode mudar o perfil do viajante nacional ao oferecer passagens a R$ 200 por trecho em períodos de baixa temporada e voos com histórico de ociosidade (Agência Gov; GOL Linhas Aéreas). A expansão para outros públicos, como estudantes do ProUni e do Fies, ainda não foi confirmada pelo governo (ISTOÉ Dinheiro), o que reforça a pergunta sobre a continuidade desse tipo de programa entre diferentes gestões.
Com as eleições gerais marcadas para o primeiro turno em 4 de outubro de 2026 se aproximando (TSE), o turismo provavelmente não estará entre os temas mais debatidos nos palanques. Mas os viajantes que entendem como esse setor funciona sabem que candidatos com propostas claras para infraestrutura, aviação civil e preservação ambiental de destinos ecológicos fazem diferença no dia a dia de quem gosta de explorar o Brasil. Acompanhar essas propostas com atenção é, também, uma forma de viajar melhor no futuro.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez